"Pois, embora a consciência nos acuse, Deus é maior que nossa consciência e sabe tudo". Primeira carta de são João - 3, 20 - in Bíblia do Peregrino - Novo Testamento. 2º ed. São Paulo: Paulus, p.627, 2005. Citação em rodapé - É "Maior" porque conhece e compreende "nossa argila".

"Sempre que vejo dos sujeitos discutindo, sei logo que ambos tem razão. Quando vejo dois sujeitos brigando, já sei que nenhum dos dois tem razão. E assim por diante... Não consigo tomar partido, por uma classe, por um país, por um filósofo, ou mesmo por uma filosofia, por um poeta, por uma escola literária, por um regime político. Tenho horror ao um... Meu horror é ao um que exclui o outro, à unicidade que exclua a variedade, ao dogmatismo que exclua a liberdade. Daí o meu horror ao fanatismo de qualquer regime, seja ele católico ou anticatólico. E minha paixão pelas distinções. Sim, mas... Não, mas...Ah, a minha paixão pelas adversativas" Alceu Amoroso Lima, "Cartas do Pai". São Paulo: Instituto Moreira Sales, 2003, p. 164.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Volte sempre, Governador!



Naquela cidade tudo funcionava direitinho, nem muuuito direito, nem muuuito errado, digamos assim direitinho. A manutenção no serviço público como de regra geral era fraca, deixava a desejar. Obra pública era o forte daquela cidade, aquilo não era uma cidade, era um canteiro de obras funcionando dia e noite.

No entanto, o que mais o povo daquela cidade apreciava era a chegada do governador. Nos dias próximos à chegada do alcaide, tudo melhorava, as ruas eram bem cuidadas, os bancos pintados, até as árvores eram retocadas com cores para chegada do governador. O mutirão da limpeza tomava conta daquela cidade, tudo a espera do governador.

O povo em festa esperava a cada mês − o governador ia muito lá – a divulgação da próxima vinda do governador. O governador sempre prestigiava as inaugurações daquela cidade. Ultimamente, o governador não estava participando muito de solenidades públicas na capital daquele Estado, haja vista, reiteradas publicações criticando a presença do governador em “festinhas” com empreiteiros ligados às obras públicas. O governador era muito bem relacionado com empreiteiros e obras públicas. Também pudera era um empreendedor, vivia em Paris em busca de recursos.

Mas, naquela cidade, como era distante da capital, não havia “perigo” para presença do governador (a imprensa local não seria indelicada a ponto de fazer perguntas “inapropriadas”), e ademais, o povo daquela cidade amava o governador, cuja visita sempre trazia pelo menos uma semana de limpeza geral na cidade, sobretudo na principal avenida e área de lazer da cidade, que, diga-se de passagem, foi totalmente reformada com o apoio do governador.

O prefeito daquela cidade adorava discursar, Fidel Castro perto dele poderia ser chamado de um tímido no discurso, tamanho a capacidade do alcaide municipal em falar horas e horas a fio em qualquer microfone que se lhe apresentasse a boca. No dia da presença do governador o prefeito falava menos, mas nem tão menos assim, todavia, era uma ocasião em que ele respeitava mais os ouvidos do povo.

Nesta semana o governador está para visitar novamente a sortuda cidade, e o povo como de hábito está radiante com as melhorias que saltam aos olhos. A limpeza – ainda que de fachada – está em pleno vapor, e o povo que não é bobo nem nada, e já sabe que na semana que vem tudo volta ao normal, já está a gritar pelas esquinas – volte sempre, governador!

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Direito e sentimento - Ministro Ayres Britto



Quem acompanha os julgamentos no Supremo Tribunal Federal – STF sabe muito bem que a postura jurídica do ministro Ayres Britto não é ortodoxa, é até mesmo chamado de o “poeta do STF”. Certa feita, o ex-ministro do STF Nelson Jobim, em acalorado debate com Ayres Britto, chegou a criticá-lo dizendo que o STF não é “casa de poetas”, mas sim de “juristas” que interpretam e aplicam o Direito. Pergunto eu, como interpretar e aplicar o Direito em sociedade tão complexa como a nossa?

Pois bem, durante seu recente discurso (Cf. “Compromisso de atuar sempre nos marcos da Constituição”.  Revista Justiça & Cidadania , nº 141 maio/2012, p. 18) de posse como presidente atual do STF o ministro Ayres Britto tentou responder a esta pergunta que acima fiz.  Como sempre o seu lado poeta falou alto, o que me toca muito pela proximidade de idéias.

Para o ministro aplicar e interpretar o direito no mundo atual é manejar, diante do caso ou das teses em confronto, os dois conhecidos hemisférios do cérebro humano. Esse é um papel atualíssimo, contemporâneo, dos magistrados. Os dois hemisférios são categorizados como tais pela física quântica e pela neurociência. O lado direito do cérebro, no qual se aloja o sentimento e o lado esquerdo, lócus do pensamento.

No lado direito temos então, 0 sentimento, a geração de energia a que chamamos intuição, contemplação, imaginação, percepção, abertura para o outro e também para sociedade em geral, disposição para dialogar com a própria existência, e também chamado de lado feminino e nos conduz ao mundo dos valores: bondade, justiça, ética, verdade e estética.

No hemisfério esquerdo temos o pensamento racional, científico, onde estão registrados os conceitos, silogismos, teorias, doutrina e todo sistema de abstrações que estamos aptos a fazer como seres dotados da razão, o chamado pensamento cartesiano. Ou, nas próprias palavras do ministro Ayres Brito: “O cientista é aquele que sabe cada vez mais sobre cada vez menos. À guisa de parte sem um todo (no sentimento é o contrário, um todo sem partes). Por isso que chamado o científico de conhecimento indireto ou discursivo ou especulativo, assim como quem sem aproxima de um campo minado ou fortaleza inimiga”. Op. cit. p. 18.

Para Ayres Brito o hemisfério esquerdo é o lado viril do cérebro, não sendo por acaso que a expressão “Direito” seja representada por uma palavra masculina. Já a palavra “Justiça” é feminina, e tem a ver com o hemisfério direito do cérebro, lado como já visto, dos sentimentos. Daí que a palavra substantiva “sentença” venha do verbo “sentir”. Assim também nos ensina Tobias Barreto citado por Britto, “Direito não é só uma coisa que se sabe, mas também uma coisa que se sente”.

Enfim, o ministro Ayres Brito em seu belo discurso uniu sentimento e Direito, hemisfério direito e esquerdo do cérebro. O jurista é esse ser INTEIRO que pensa como um todo, não só como cientista que é, mas como ser humano dotado de emoção e sentimento. Na platéia estava presente a nata do poder brasileiro em todas as suas esferas, a começar pela presidenta Dilma Roussef.

O final apoteótico do discurso merece citação integral: “Por último, ponho meus olhos nos olhos de Rita, mulher com quem durmo e acordo, e que também é a mulher dos meus sonhos. Mulher a quem digo que tinha mesmo que ser abril o mês desta minha posse. Pois abril foi o mês em que nos conhecemos. O dia 9 foi a cereja do bolo. Rubra como a pele das manhãs ainda no talo das madrugadas. Doce como o gosto da minha vida. Rita, ao seu lado desde então. Obrigado a todos”. 

terça-feira, 15 de maio de 2012

Felicidades seu Jair



Quem entra no CTO (Centro de tratamento oncológico) de Petrópolis pela primeira vez, se assusta. O volume de pacientes é enorme e o nome do centro também é assustador, talvez devesse se chamar CTV (Centro de tratamento da vida). No entanto, o nome é este mesmo, CTO, gostem ou não gostem. O CTO acolhe residentes de Magé, Nova Friburgo, Teresópolis, Areal, Três Rios, Paraíba do Sul e outras mais cidades. É uma máquina de radioterapia para atender aos pacientes de todas as cidades. Funciona de 6 da manhã a 22h30m, todos os dias, exceto, sábado e domingo, aliás, sábado funciona na parte da manhã.

Na primeira sessão de radioterapia o paciente chega desconcertado, a espera do que virá, os primeiros sorrisos na recepção são amarelos, o encontro com os colegas também pacientes é discreto e até mesmo distante. Porém, uma coisa é visível no CTO, todos se cumprimentam, na chegada, na saída e durante a estadia o clima que vai se instalando é um só: solidariedade. Todos querem se ajudar e se fazer agradáveis, o humano pulsa na sua melhor vertente.

Quando a vida ameaça esvair por entre os dedos e o ser humano se libera de todas suas vaidades, é a hora em que ele atinge o máximo de conformidade cristã, ou seja, fica conforme a Cristo: manso, pacífico, amoroso e acolhedor. No CTO a doença é democrática, colhe a todos, do rico, passando pelo mediano até chegar ao pobre, todos estão irmanados em torno do mesmo tratamento e mais, usando a mesma máquina de radioterapia, não importando se você tem plano de saúde ou se está se tratando pelo SUS. Todos estão juntos, e todos lutando pela vida.

Hoje foi a última sessão de radioterapia de seu Jair. A família estava emocionada, os colegas pacientes também, e todos os funcionários não escondiam a emoção. Seu Jair, já idoso, parece firme e curado da doença. Os familiares trouxeram salgados e refrigerantes para comemorar a alta de seu Jair. Os pacientes foram chegando para as suas sessões, e em meio a tudo isso, a atenciosa secretária do CTO pôs a mesa com os apetrechos para “festinha”. Todos os presentes se deram as mãos, e uma das Irmãs do Mosteiro de São Bento, que também lá estava como paciente, puxou as orações: primeiro um Pai-Nosso e depois uma Ave-Maria. Lindo, emocionante.

Seu Jair não quis falar, estava deveras comovido. Seus familiares também não conseguiram falar. Uma das irmãs tomou a palavra e agradeceu a Deus pelo fim das sessões de seu Jair, e pela sua condição de curado, e clamou a Deus por todos os outros pacientes ali presentes, inclusive, ela mesma.

A noite foi linda e harmoniosa, quem ali chegasse não imaginava estar em pleno CTO, as pessoas se confraternizavam e sorriam no clima contagiante das irmãs do Mosteiro de São Bento (eram três delas) a presença de Deus era evidente, é impossível não se lembrar desta passagem bíblica, “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estarei no meio deles”. (Mt 18,20).

Felicidades seu Jair, que Deus o abençoe nesta nova caminhada.

domingo, 13 de maio de 2012

O direito segundo Bento XVI



Li a matéria publicada no “L’Osservatore Romano”, jornal do Vaticano, do dia 28/04/2012, pág. 2, intitulada “o direito segundo Bento XVI – a razão é de todos”, da lavra do Cardeal Francesco Coccopalmerio, presidente do Pontifício Conselho para os Textos Legislativos, onde o cardeal discorre sobre o discurso do Papa Bento XVI, pronunciado no Bundestag (parlamento alemão) em 22/09/2011. No discurso o Santo Padre enfrenta de modo exclusivo a relação do direito e sociedade. Traçarei abaixo os pontos da fala do Papa que mais me chamaram a atenção e que nos convida também a uma reflexão.

Para o Papa o direito relaciona-se umbilicalmente com a dignidade da pessoa humana, de maneira que o direito é ontologicamente a justiça e o bem, neste sentido o direito não se esgota na lei, reafirmação do Papa que nos faz lembrar o famoso julgamento de Nuremberg, pós segunda guerra mundial, quando os oficiais nazistas alegavam em sua defesa que “cumpriam a lei, cumpriam ordens”, e o tribunal plasmou a máxima de que o direito é maior do que a lei.

O Papa trabalhou com rigor a questão das relações correntes entre lei e direito, e destacou alguns binômios esclarecedores, por exemplo, lei x verdade, justo x lei, coisa justa x direito vigente, verdadeiramente justo x justiça na legislação. O Santo Padre fez questão didática de assinalar que existem duas realidades, “por um lado, há o que é justo, a verdade e, por conseguinte, há o direito; por outro, há a lei. Essas duas realidades são distintas entre si, mesmo se essencialmente relacionadas – esclarece o cardeal Coccopalmiero.

Nas lições do Papa, são duas realidades distintas porque o direito vem antes, enquanto a lei vem depois. Neste diapasão é o justo, ou seja, o direito que se “torna” lei. Noutro dizer, o direito é realidade ontológica preexistente ao legislador, enquanto a lei é realidade intencional, porque criada pelo legislador. Aqui neste particular o Papa se alinha as mais robustas correntes do jus naturalismo, ou direito natural.

O Papa é firme ao frisar que a lei depende do direito, no sentido de que deve conter o direito e deve expressá-lo em suas várias circunstâncias e necessidades, não podendo assim contrariar o direito existente. Aqui também me parece que o Papa está a repudiar com força a idéia da autonomia do direito em relação à realidade mesma, evitando assim os exageros do jus positivismo (direito é a lei).

O Papa também questionou a idéia de que a vontade da maioria deva sempre prevalecer como critério suficiente no fazimento da lei, haja vista, segundo ele, que nas questões fundamentais do direito, onde está em jogo a dignidade da pessoa humana, o princípio majoritário não é suficiente para contemplar o direito preexistente, fato que é comprovado no Brasil, pela atuação do Supremo Tribunal Federal em defesa das minorias: mulheres, índios, homossexuais etc.

Fixada a idéia de que o direito ontológico é uma realidade prévia ao legislador, surge a questão central do discurso do Santo Padre: como é possível conhecer o direito ontológico? Por exemplo, no caso típico dos embriões, eles têm o direito de receber respeito e abstenção de lesões porque são vidas humanas ou podem ser suprimidos? Como pode o legislador conhecer o direito ontológico para dar resposta a esta indagação. Podem as religiões em geral oferecer uma resposta do que seja o direito ontológico? O Papa responde positivamente, ou seja, as religiões podem oferecer uma resposta do que seja o direito ontológico, no caso citado, o reconhecimento de que o embrião é vida humana.

Todavia, o Papa pontua com fino saber que no caso de uma religião declarar a ontologia do direito, é, só pode ser, a fé de um sujeito, ou melhor, a adesão por fé de um sujeito ou grupos de sujeitos, à autoridade da religião que confirma a ontologia. Entretanto, a fé necessariamente não pertence a cada sujeito da comunidade civil, muito menos ao legislador como um todo, portanto, o direito ontológico deve dialogar intensamente com a liberdade de consciência e liberdade religiosa, só assim teremos respostas aceitáveis.

É aqui que o Santo Padre Bento XVI aposta todas as suas fichas na razão humana, para dizer na voz interposta do Cardeal Coccopalmerio que: “A este ponto é decisivo ressaltar que a razão representa o instrumento cognoscitivo adequado não só porque – como é óbvio – capaz de indagar a natureza e deste modo conhecer a ontologia, mas também porque ao contrário da adesão por fé, que é só de alguns, A RAZÃO É DE TODOS”.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Comigo não violão



Geralmente gosto de ler estilos que se opõem a minha forma de colocar-me no mundo. Fico com aquela ponta de inveja... Por exemplo, leio Diogo Mainardi, Gustavo Corção, Nélson Rodrigues, Olavo de Carvalho, Luiz Felipe Pondé e Paulo Francis. São autores que escrevem de uma maneira incisiva. É preto no branco. Assumem posições firmes. Tal perfil é o meu oposto. Adoro-os. Paradoxos da existência. Por exemplo, estou lendo de Paulo Francis “O diário da corte”, uma seleção de crônicas recentemente lançadas pela Editora Três Estrelas, inclusive, com posfácio de Luiz Felipe Pondé. O livro é bárbaro, dá uma sensação gostosa em ver tanta autenticidade em uma única pessoa. Francis, realmente, é encantador. Ame-o ou deixe-o. Eu? Nem tanto.

Enfim, adoro os autores que não consigo reproduzir, não obstante também goste muito daqueles que são verdadeiramente parecidos comigo no modo de existir. Neste particular, há um que me chama muito a atenção. É Alceu Amoroso Lima. Há uma passagem do livro “Cartas do Pai” − escrito por ele, à sua filha enclausurada em um mosteiro – que revela perfeitamente o que eu sinto sobre mim mesmo, daí que até reproduzo ela, passagem, em meu blog, a saber.

Está assim redigida: "Sempre que vejo dos sujeitos discutindo, sei logo que ambos têm razão. Quando vejo dois sujeitos brigando, já sei que nenhum dos dois tem razão. E assim por diante... Não consigo tomar partido, por uma classe, por um país, por um filósofo, ou mesmo por uma filosofia, por um poeta, por uma escola literária, por um regime político. Tenho horror ao um... Meu horror é ao um que exclui o outro, à unicidade que exclua a variedade, ao dogmatismo que exclua a liberdade. Daí o meu horror ao fanatismo de qualquer regime, seja ele católico ou anticatólico. E minha paixão pelas distinções. Sim, mas... Não, mas...Ah, a minha paixão pelas adversativas".  Alceu Amoroso Lima, "Cartas do Pai". São Paulo: Instituto Moreira Sales, 2003, p. 164.

Eu sou assim também, uma plêiade de possibilidades. Há algum tempo tentei lutar contra isto, tentei até tomar partido de forma veemente em algumas situações, mas sempre me dou mal. Não consigo sequer zoar o Botafogo, acho que não vale à pena. Sou bonzinho? Não. Hesitante. Vira e mexe bate aquela vontade louca de ponderar: sim, não, mas, talvez, oh, Alceu, “minha paixão pelas adversativas”.

O título desta crônica é de Paulo Francis, “Comigo não, violão”, que está às paginas 106/109 do livro já citado. Diz Francis: “Se não fosse o grupo de imperialistas econômicos americanos não teríamos ópera. Escrevi aqui várias vezes que é muito mais fácil odiar os Rockfellers no Brasil do que em Nova York. De que jeito posso se não amar a irmã de David e Nelson, Abby, pois se foi ela que deixou 5 milhões de dólares para que o Met me desse um Tristão e Isolda com Birgit Nilsson, em 1974, com que sonho até hoje. Toda produção nova e boa tem tutu de algum bilionário cujas empresas provocam fome na Etiópia e na Índia. É um paradoxo moral que resolvi confortavelmente, atacando-os politicamente e gozando o que me propiciam. (...) É preciso manter a cultura, o que resta, acima da canaille. Detesto violão. E comigo não.”


quinta-feira, 3 de maio de 2012

Caminhos possíveis



Dois assuntos me movem: a coluna de Contardo Calligaris na Folha de hoje, “Faust moderno” e a desobediência contumaz dos padres austríacos em face da Igreja Católica. Calligaris nos fala da peça “Fogo-Fátuo” que está em cartaz no Sesc em São Paulo, e que contém a seguinte reflexão feita por Mefisto: − “qual função ainda tem o diabo num mundo em que os homens não precisam dele para fazer o pior?”, ou, nas palavras de Calligaris, “Só topo vender a alma em troca de sucesso em minhas empreitadas terrenas se meu breve tempo de vida for, para mim, mais importante do que a eternidade do céu”.

Enfim, o mundo moderno ao não mais oferecer uma resposta pronta à pergunta “quem somos?” acaba por nos colocar sempre numa situação de frustração de nossos desejos. Exemplifica Calligaris: estou feliz no casamento? É porque desistiu de procurar o amor de sua vida. Tem um bom emprego e está satisfeito? É porque abriu mão do grande empreendimento de sua vida. Tem paz de espírito? É porque desistimos de procurar a pedra filosofal que daria significado a tudo. Enfim, o desassossego é geral na sociedade como um todo. Ou, como diz Calligaris, “O Faust de hoje já vendeu sua alma: ele vive com o sentimento de que seu sucesso, por modesto que seja, custou-lhe a renúncia à sua vocação, ao seu desejo, ao seu ser”

No seio da Igreja Católica, parte da cultura total, as questões do mundo moderno também ressoam fortes. Por exemplo, padres austríacos recentemente, junho do ano passado, lançaram um manifesto denominado “apelo à desobediência”, onde o Padre Helmut Shüller reivindica o de sempre – ordenação de mulheres sacerdotes, a comunhão para os divorciados recasados e a abolição do celibato obrigatório.

Enfim, os padres austríacos também querem viver “os seus desejos”. Mês passado, o Santo Padre Bento XVI aproveitou a homilia da Missa Crismal para enfrentar o tema levantado pelos padres austríacos e refletiu; “Será a desobediência um caminho para renovar a Igreja?”, ou será, diz ele, “apenas um impulso desesperado de fazer qualquer coisa, de transformar a Igreja, segundo os nossos desejos e as nossas idéias?”.

É nítida a afetação dos padres austríacos pelos problemas do mundo atual e por seus “desejos” e também é claro e evidente que o Papa Bento XVI tem a exata dimensão de seu papel enquanto guardião da fé católica quer gostemos ou não. Diz ainda o Papa, “Todo o anúncio se deve confrontar com esta palavra de Jesus Cristo, “A minha doutrina não é minha (Jo 7, 16). Não anunciamos teorias ou opiniões privadas, mas a fé da Igreja da qual somos servidores”.

As dúvidas da peça em cartaz em São Paulo são as “mesmas” dúvidas que assolam os padres austríacos, sinais da modernidade, porém, no caso dos padres eles estão (porque querem) inseridos num corpo eclesial (Igreja) daí porque me parecem oportunas as palavras do crítico literário Rodrigo Gurgel, fortes no dizer do Beato Cardeal John Henry Newman, “a crítica à Igreja sem disposição de obedecer resulta necessariamente estéril”.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

A igualdade ama a mediocridade



Esta frase título extraída do texto às páginas 42, bem pode sintetizar o conteúdo do livro “Guia politicamente incorreto da filosofia”, de Luis Felipe Pondé, lançado recentemente pela Editora Leya. No meu entender Pondé é o Nélson Rodrigues do século XXI, é lógico, guardada as devidas proporções (para mim, Nélson é inigualável). Nélson era muito mais escritor (dramaturgo, poeta etc) do que Pondé, suas linhas eram traçadas com um rigor estilístico encantador. Nélson também possui um lado conservador mais definido e uma crença espiritual que a todo o momento vem à tona em sua obra. Já Pondé é menos escritor e mais sarcástico com tudo, não tendo uma religiosidade definida. A verdade é que Pondé vive numa sociedade muito mais complexa do que aquela em que viveu Nélson – segunda metade do século XX - razão da multiplicidade de temas abordados pelo segundo. O primeiro foi jornalista por profissão, o segundo é filósofo, ambos, com estilos dissonantes combatem o politicamente correto da vida cotidiana de ontem e de hoje.

Nélson Rodrigues nos legou as “narinas da grã-fina”, a “ousadia dos idiotas” e o “óbvio ululante”. Pondé nos fala dos “jantares inteligentes”, do “sair de férias de avião é brega”, “só o outro insuportável importa”, do “budismo light” e se coloca “contra a covardia”.  Resumo agora trecho de passagens marcantes do livro.

Sobre o viajar demais nos dias atuais; “Um dos projetos da minha vida é não viajar nunca mais, pelo menos, cada vez menos e para menos longe. Exterior, nem pensar. Se acha estranho o que eu estou dizendo, é porque você não viaja o suficiente ou porque sofre daquele tipo de sintoma característico da “espiritualidade” da classe média, que é “querer conhecer o mundo, os museus, os aeroportos sentir o frisson porque irá a Paris (...) Ficar feliz por sair de férias de avião é brega. Um conselho: se você tem mais de 20 anos e acha avião chique, finja que não acha. Sinto dizer, o mundo acabou. Fique em casa” (p. 107).

Sobre os fortes e os fracos: “Movidos pela idéia rousseauniana de que o mais fraco politicamente é por definição melhor moralmente, o exército do politicamente correto se transformou numa grande horda de violência na esfera intelectual nas últimas décadas, criando uma verdadeira “cosmologia” politicamente correta...” (p. 32).

Sobre os “excluídos”: “Para os defensores do politicamente correto, tudo é justificado dizendo que você é pobre, gay, negro, índio, ou seja, algumas das vítimas sociais do mundo contemporâneo. Não se trata de dizer que não há sofrimento na história de tais grupos, mas sim dos exageros do politicamente correto em querer fazer deles os proprietários do monopólio do sofrimento e da capacidade de salvar o mundo. O mundo não tem salvação”. (p. 39).

Sobre o budismo light: “Dizer que se é budista (ninguém deixa de ser católico ou o judeu e vira budista em três semanas de workshop em Angra dos Reis ou num centro budista nas Perdizes, em São Paulo) pega bem em jantares inteligentes, porque dá a entender que você não é um materialista grosseiro, mas sim um espiritualista sustentável. Basicamente, uma religião sustentável não precisa sustentar nada a não ser uma dieta balanceada, uma bike importada e duas ou três latas de lixo de design em casa, para a reciclagem do lixo. Esse é o budismo da gente “chiquinha” de São Paulo. Normalmente é gente com grana, preguiçosa, que nunca quis arrumar o quarto quando era adolescente e, com o budismo light, descobriu que esse é um direito dela, porque no budismo não existe pecado, logo, você por ser preguiçoso com bençãos cósmicas”. (p. 127/128).

Luis Felipe Pondé às vezes exagera, faz parte do jogo retórico dele, mas, que toca com fino humor e sagacidade os dilemas do mundo atual, ah, isso toca!


quarta-feira, 25 de abril de 2012

O Supremo e as cotas raciais



O Supremo Tribunal Federal – STF, começou a julgar hoje a constitucionalidade ou não do sistema de cotas para índios e afrodescendentes criados pela UNB (Universidade Federal de Brasília). Tudo indica que a ação seja julgada improcedente, e prevalecerá o sistema de cotas. Toda discussão gira em torno do art. 5º, caput, da Constituição Federal que está assim redigido: “Art. 5º. Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade...”

Noutro dizer, o cerne da questão é o princípio igualdade ou isonomia. Os que são contra o sistema de cotas defendem que o sistema tem como critério de escolha do beneficiário, um dado furado, ou seja, a cor da pele como representativa do negro ou do pardo. Diz Reinaldo Azevedo, colunista de Veja, que subscreveu um manifesto com outros intelectuais, e que foi entregue a cada ministro do STF: “Raças humanas não existem. A genética comprovou que as diferenças icônicas das chamadas “raças” humanas são características físicas superficiais, que dependem de parcela ínfima dos 25 mil genes estimados do genoma humano. A cor da pele, uma adaptação evolutiva aos níveis de radiação ultravioleta vigentes em diferentes áreas do mundo, é expressa em menos de 10 genes!”

Reinaldo Azevedo ainda cita o geneticista Sérgio Pena, que diz: “O fato assim cientificamente comprovado da inexistência das ‘raças’ deve ser absorvido pela sociedade e incorporado às suas convicções e atitudes morais Uma postura coerente e desejável seria a construção de uma sociedade desracializada, na qual a singularidade do indivíduo seja valorizada e celebrada. Temos de assimilar a noção de que a única divisão biologicamente coerente da espécie humana é em bilhões de indivíduos, e não em um punhado de ‘raças’.” (”Receita para uma humanidade desracializada”, Ciência Hoje Online, setembro de 2006).

Por outro lado, Elio Gaspari no “O Globo” de hoje cita um texto dos advogados, Márcio Thomaz Bastos e Luiz Armando Badin que defendem as cotas raciais, e assim dizem: “A igualdade nunca foi dada em nossa história. Sempre foi uma conquista que exigiu imaginação e risco e, sobretudo, coragem. Hoje não é diferente” (“Hoje o STF julgará as cotas”, 25/04/2012, p. 6.).

Formei-me na UCP – Universidade Católica de Petrópolis, uma belíssima universidade particular. Minhas chances de passar num vestibular federal era zero. Minha família suou para pagar minhas mensalidades. Colegas negros na UCP, na época? Raríssimos. Só filho de rico que estudou em colégio particular era aprovado em universidade federal. Passaram-se vinte anos e tudo está do mesmo jeito. Classe média estuda na universidade particular e classe média alta em universidade pública. A universidade pública sempre foi e é monopólio dos filhos dos mais despojados financeiramente.

O sistema de cotas não está correto ao privilegiar negros e pardos no percentual de vinte por cento das vagas, mas, pelo menos retira dos mais poderosos financeiramente o monopólio das vagas. Os filhos brancos de classe média continuam perdendo, continuam fora das universidades públicas, porque não estão no sistema de cotas, todavia, pelo menos alguém saiu ganhando fora do tradicional círculo de detentores do poder financeiro. Que assim seja então.

É hora de corrigir o sistema de cotas para fazer com que ele funcione de acordo com a situação financeira do vestibulando e não consoante sua cor de pele. Até lá, que fique vigorando este mesmo, melhor que nada. O sociólogo português Boaventura Sousa Santos defende que o conceito de igualdade deve ser visto da seguinte forma: “tenho o direito a ser igual sempre que a diferença me inferioriza; e tenho o direito a ser diferente sempre que a igualdade me descaracteriza”. As duas hipóteses podem ser aplicadas aos negros, pardos, índios, mulheres, idosos, deficientes físicos e homossexuais. Neste sentido a busca da igualdade é sempre uma intervenção afirmativa em meio a certa inferioridade ou descaracterização. Ou seja, a distinção dada ao negro e aos pardos faz valer a igualdade, porque tratá-los igual aos financeiramente abastados seria deixá-los em situação inferiorizada nos vestibulares para universidade pública.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Ser livre nos dias atuais



Quando se pergunta a qualquer leigo o que ele entende por liberdade, a resposta é imediata, “fazer o que se quer”. Theodor Adorno (1903-1969) bem representou esse desejo: “A liberdade não consiste em escolher entre o branco e o preto, mas em subtrair-me desta escolha pré-definida”. De fato, o homem marcado pelo pecado original já não se reconhece mais como criatura, mas sim, como dono de seu destino. O homem “emancipado” de Deus não vislumbra um mal ou um bem “a priori”, tudo são nossas escolhas. O homem é sem essência, pura criação de si mesmo, logo, condenado a liberdade ─ diz Sartre.

Ser livre, então, é poder dizer não nos moldes de que vieram preconizar os hippies dos anos 60, ou seja, “faça do seu jeito”. No fundo ser livre é querer ser deus, razão pela qual a marca das relações interpessoais neste caso é a rivalidade, porquanto sendo eu o autor único de minha vida todos os demais são meus coadjuvantes, por decorrência, o “inferno é o outro”, novamente cito Sartre. Na verdade todos estão brincando de deuses no mundo atual.

Boa parte de nossa sociedade professa esse conceito de liberdade pugnado pelas diversas correntes de filosofias e éticas materialistas (Sartre, Marx, Freud, Nietzsche etc.), que no fundo é uma condenação ao egoísmo, à dolorosa solidão. É evidente que este modelo de vida só produz caos nas relações sociais, porquanto é semente de discórdia, rancor, egoísmo, competição, brutalidade, insensibilidade e desumanidade. Essa visão de liberdade unilateral, eu comigo mesmo com a exclusão do outro, não tem conduzido nossas vidas a porto seguro, pelo contrário, estamos em profunda crise nas relações interpessoais.

A idéia materialista é de que somos livres até mesmo de qualquer obediência. Tal fato não passou despercebido a crítica pontual de Antonio Marchionni, em seu livro “Ética – arte do bom”, Petrópolis: Vozes, 2008, p. 107/108, ao dizer, “a autonomia moral das filosofias materialistas não parece tão autônoma assim: o homem decide autonomamente, mas com base em quê? Em nada? Esta autonomia, que pretende excluir qualquer paradigma ou mapa prévio à subjetividade livre do indivíduo, na verdade não existe. De fato, as éticas materialistas obedecem às exigências da natureza humana e da convivência entre naturezas humanas. A liberdade total é uma quimera, pois só existe uma liberdade situada dentro de exigências maiores, visíveis ou invisíveis que sejam. O homem religioso obedece as exigências do Criador, o homem materialista obedece as exigências das leis biológicas, sociais e físicas. Todos obedecemos”.

Enfim, é paradoxo do “humanismo ateu”, “livres” e desamparados de valores eternos, somos feras jogadas aos leões no Coliseu da vida pós-moderna. Ser devorado? Puro andamento da fila...

Penso que liberdade deve ser visto como alteridade, ou seja, sou livre na exata medida em que entro em comunhão com o outro, viver é conviver. “Novidade” minha, não, de Cristo. O repúdio do homem contemporâneo em ser “reduzido a mero artefato divino” (expressão existencialista) nos leva a uma vida que não funciona, ou seja, tudo é permitido, porém nada faz sentido.

Precisamos novamente lembrar da derrota de Adão e Eva que também tentaram ser deuses ─ felizmente a vitória veio por Nosso Senhor Jesus Cristo na cruz ─ e deixarmos também de brincar de deuses de nossas escolhas. Ao contrário do que diz a onda atual, não somos os senhores de nossa existência, somos livres somente e na medida em que nos libertamos daquilo que mais nos escraviza ─ o pecado da soberba atual ─ vivamos no aqui e agora a presença antecipada do céu, que é comunhão (nós e os outros) e Trindade Divina, Deus é amor e nós suas criaturas amadas!


sábado, 14 de abril de 2012

Comunismo x ditadura no Brasil


Após ver algumas críticas favoráveis, comprei o livro “Guia politicamente incorreto da história do Brasil”, do autor Leandro Narloch. Interessantíssima a visão exposta no livro, concordo plenamente com a observação feita pelo filósofo Luiz Felipe Pondé sobre a obra: “um ótimo livro e fácil de ler. Uma singular heresia perdida em meio ao mar de unanimidades”.

O livro com extremo rigor científico (é politicamente correto a gente falar assim, hoje se você não falar em nome da ciência, ninguém se impressiona, então, vá lá) oferece um olhar nada correto sobre vários ícones da história brasileira, a saber, índios, negros, escritores, samba, Guerra do Paraguai, Aleijadinho, Acre, Santos Dumont, Império, e por fim, os comunistas.

Adorei o capítulo que fala, e mal dos comunistas.

É bom ler o outro lado da moeda, já que a maioria de nossos livros só tendem a criticar o movimento revolucionário de 1964, o autor na linha do “politicamente incorreto” mostra por A + B que a história não se passou bem assim. Diz Leandro Narloch; “É muito repetida a idéia de que os grupos de esquerda decidiram partir para a luta armada porque essa era a única resposta possível à rigidez da ditadura. Na verdade, antes de os militares derrubarem o presidente João Goulart, já havia guerrilheiros planejando ações e se preparando para elas.” (p.314).

Escudando-se no historiador Marco Antonio Villa, cita Leandro, “Ou seja, a opção pela luta armada, o desprezo pela luta política e pela participação no sistema político e simpatia pelo foquismo guevarista (idéia de que pequenos focos de resistência no campo desestabilizariam o poder central) antecedem o AI-5 (dezembro de 1968), quando, de fato, houve o fechamento do regime. O terrorismo desses pequenos grupos deu munição (sem trocadilho) para o terrorismo de Estado e acabou usado pela extrema-direita como pretexto para justificar o injustificável: a barbárie repressiva [...] (p. 321).

Leandro também lembra forte em Elio Gaspari que o desejo da esquerda brasileira na ocasião era implantar uma ditadura socialista aos moldes da cubana, de Fidel Castro, até hoje paparicado pela esquerda brasileira, Diz Gaspari, “a luta armada fracassou porque o objetivo final das organizações que a promoveram era transformar o Brasil numa ditadura, talvez socialista, certamente revolucionária. Seu projeto não passava pelo restabelecimento das liberdades democráticas”. (p. 322).

Enfatiza Leandro, “Basta olhar para os países comunistas de hoje para perceber o que os heróis da luta armada fariam com a gente. Os cubanos não só se prostituem para comprar sabonetes como aprendem na escola que amor é o que Fidel Castro sente pelo povo. A China vigia a internet, prende blogueiros indesejáveis e censura até mesmo informações de saúde pública, sobre epidemias e infecções em massa. Como não houve socialismo no Brasil (graças a Deus digo eu), nunca saberemos como teria sido o sistema por aqui. Mas podemos imaginar. (p. 323/324) (o parêntese no texto é meu).

Falando sobre as organizações guerrilheiras que se instalaram contra o regime militar aqui no Brasil, pontua Leandro, “Nas pequenas organizações de conspiradores e guerrilheiros dos anos 1960 e 1970, é fácil perceber o controle extremo da conduta individual, a violência baseada na superioridade moral e obsessão com a traição – a mesma que fez Stálin executar companheiros próximos”. (p. 330)

Enfim, Leandro Narloch não nega tenha os militares brasileiros torturados pelo menos 2 mil pessoas com choques, empalações, palmatórias nos seios das prisioneiras, entre outras selvagerias (...), porém, traz à tona com farta fundamentação que os guerrilheiros comunistas (que queriam já derrubar o governo de João Goulart, anterior a ditadura) estavam “estupidamente errados e eram tão violentos e autoritários quanto os militares”. Para Leandro, “1. A guerrilha provocou o endurecimento do regime militar”.

Em minha opinião, só por esse capítulo, “Os comunistas”, o livro já merece ser lido.

Café bíblico - abril/2012


Tema: O Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo Mateus.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Lucidez no Supremo - o voto Lewandowski

Numa democracia o jogo político-jurídico funciona assim: a maioria faz as leis em conformidade com a Constituição. O Supremo Tribunal Federal órgão de cúpula, está situado no topo do Poder Judiciário, e como tal tem o mister de zelar pelo cumprimento da Constituição. Neste sentido é pacífico na doutrina jurídica ocidental que o Supremo é um tribunal contramajoritário, isto é, um tribunal que compete dentre outras coisas defender a minoria contra o uso abusivo de leis produzidas pela maioria, já que é consentâneo que o poder da maioria tende naturalmente a oprimir a minoria. É o que dizem os bons livros de Direito Constitucional da atualidade.

Pois bem. Na democracia, o Supremo Tribunal Federal não cria leis, cumpre-as. O Supremo não é legislador é julgador, e julgador nos moldes da Constituição. No caso dos anencéfalos que está sendo julgado no STF, o que se pretende (e parece óbvio que vão conseguir, já que está 5x1) é a título de uma suposta “defesa” de uma minoria (as mães cujos fetos padecem de anencefalia) criar-se mais uma hipótese de inimputabilidade pela prática do aborto, ou seja, a criação de uma nova hipótese legal sem a intervenção do poder legislativo, único legitimado a inovar leis numa democracia.

O plenário do Supremo Tribunal Federal interrompeu, no início desta noite, o julgamento em que a maioria ao revés de utilizar a expressão “aborto”, preferiu o eufemismo da expressão “antecipação do parto”, o que ao final é o mesmo: aborto, morte de inocente, já que o anencéfalo é, portanto, existe.

O ministro Lewandowski, sexto a votar, disse inicialmente que os valores a serem preservados nos casos de aborto, são a vida do nascituro e a vida e a incolumidade psíquica da gestante. Segundo ele, o legislador isentou de pena o aborto em apenas duas hipóteses (artigo 128 do CP): o “necessário ou terapêutico” (perigo de vida par a mãe) e o “sentimental” (decorrente de estupro). Bravo, uma ilha de lucidez!
Para Lewandowsi, dado o princípio básico da “conservação das normas”, é possível a “interpretação conforme” a Constituição, mas sempre na “lógica do razoável”. Segundo ele, anencefalia é, na verdade, falta de “parte” do cérebro, difícil de ser avaliada, e o STF não pode modificar ou interpretar uma lei aprovada pelo Congresso (o Código Penal), abrindo condições para “abortos em série”.
Lewandowski, argumentou e bem, no sentido de chamar a atenção para o fato de que o assunto é tão “complexo” que há vários projetos de lei em tramitação no Congresso sobre a descriminalização do aborto. Depois de citar alguns desses projetos, ele reafirmou que — se o Legislativo está tratando da matéria — o Judiciário não pode “legislar”, o que ocorreria no caso de uma “interpretação conforme” do Código Penal. Segundo ele, isolado em meio há cinco votos favoráveis ao aborto do anencéfalo, o STF não pode “criar uma nova norma, usurpando a competência do Congresso”.  Enfim, pura acuidade!

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Café bíblico - fev/12

Ontem realizamos aqui em casa o Café bíblico de fevereiro/12. 

O tema foi o "Evangelho segundo Mateus". 

Fizemos uma pequena introdução à Bíblia e após refletimos por duas horas sobre os primeiros quatro capítulos do Evangelho. Noite rica!



terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

O Direito em minha vida


Quando uma encruzilhada bateu em minha vida, pois já estava com vinte anos e ainda não havia ingressado numa universidade, meus botões falaram comigo, − por que não fazer Direito? Vocação? Sei não, apenas sempre fui bem articulado, mas, de leitura mediana.

Cheguei a UCP em 1986 sem nenhuma condição financeira, trazia no bolso vazio apenas o desejo de uma profissão. Saí da UCP em 1991.  Seis meses depois estava estagiando em um escritório, justamente com foco no direito tributário, minha paixão até hoje.

Só cheguei ao direito tributário porque primeiro me apaixonei pela teoria geral do direito. Quando ouvi pela primeira vez que havia uma distinção entre o mundo do ser e o mundo do dever-ser, descobri minha outra vocação: a filosofia do direito. Kelsen havia me arrebatado...

Foi em Paulo de Barros Carvalho que encontrei o meu maior conforto intelectual. Até hoje me lembro quando comprei o meu primeiro Curso de Direito Tributário. Ali, em Paulo de Barros Carvalho deitei minha formação em teoria geral do direito, filosofia do direito e direito tributário. Quando entrei para o mestrado em 1997 eu já era praticamente formado pela escola paulista de direito tributário, o que rendeu para mim uma feliz bolsa de estudos graciosamente me dada pelo escritório Ulhôa Canto − um dos maiores do país na minha área − na pessoa querida do Dr. Condorcet Rezende.

Retornei a UCP, minha casa querida em 2000, já como professor na cadeira de direito tributário. Uma vez UCP, sempre UCP. Naquela capela do Sion já vivi momentos de muita emoção e agradecimento, primeiro como aluno e depois como professor.

Escrevi isto tudo só para dizer da minha emoção de ter minha filha, Isadora, cursando justamente, Direito, minha grande paixão, na UCP, minha casa. Isadora hoje me mandou um torpedo dizendo que o querido amigo e professor, Danilo Badaró sugeriu que ela lesse o “Direito como processo de adaptação social”, no primeiro encontro que teve com seus alunos de introdução ao estudo do direito. Em minha mente e meu coração veio à tona novamente aquela descoberta que me fez apaixonar pelo Direito, qual seja, a “distinção entre o mundo do ser e o mundo do dever-ser”. Quem me conhece, sabe o quanto isto é caro para mim...

Machado de Assis diz no final de Memórias Póstumas de Brás Cubas: “não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”. Pois, digo eu: tenho filhas transmite a elas o legado da minha apaixonada existência...

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

O que é a mulher?


Diz o lugar-comum que o homem metaforicamente é um painel de um fusca 1960 com um único botão: liga e desliga. E a mulher é um painel de um Boeing 737 todo iluminado com seus milhares de pontos, qual apertar, ou não apertar?

Para colocar mais lenha nessa fogueira, esta semana o premiado cientista britânico, considerado um dos maiores gênios da atualidade, Stephen Hawking, indagado sobre qual o maior mistério da vida neste planeta, sem titubear respondeu: a mulher.

Se o autor de “Uma breve história do tempo”, que literalmente, com seus estudos mudou completamente o conhecimento que temos do Universo, ao lançar luzes sobre a origem do Cosmos e seu futuro, os buracos negros e a cosmologia quântica, diz que a mulher é o maior mistério para ele, quem sou eu para discordar.

Aqui em casa vivo em meio a três mulheres. Assim como Hawking sei bem pouco sobre elas, senão que sou amado. Para mim é o necessário e para lá de suficiente. Quando chamado a tomar decisões geralmente dou um jeito de colocar elas entre elas e saio de fininho...

Certa feita, uma aluna minha na UCP me contou feliz que estava namorando. Ele era de uma cidade um pouco distante. Ela reclamava que não ia vê-lo no final de semana e que desejaria muito isto. Eu tentando ajudar, opinei: - mande ele vir para Petrópolis ué. E ela: -  “Professor! As coisas não podem ser assim, tem que ter paciência, um dia ela virá”. Ela só queria me falar. Elas são assim, nos cercam de mansinho e nos ganham na persistência.

Nélson Rodrigues (“O reacionário – memórias e confissões” Rio de Janeiro: Agir, 2008, p.130/131), nosso maior dramaturgo e profeta tricolor, conta-nos que uma estagiária de um jornal foi designada para entrevistar um milionário paulista sobre um tema específico: uso da pílula. Como o homem tinha apartamento no Rio foi fácil.

“A menina não pensou duas vezes. Discou. Mas houve a coincidência – dez minutos antes do telefonema ou, senão, dez minutos, meia hora antes, o industrial tivera um enfarte brutalíssimo. O Pró-Cardíaco estava lá. Na tenda de oxigênio, o doente tinha o olho enorme e fixo de terror. O médico já cochichara: - “Grave.” Foi neste momento, com o homem estrebuchando na tenda, que tocou o telefone. As pessoas andavam descalças e explico: - o rumor de passos aumentava os padecimentos do enfartado. O filho se arremessou para o telefone: - “Alô, alô”. E a estagiária: - “É da residência do Sr. X? Aqui é do jornal Z. Podia chamar o Sr. X?” O rapaz explica, baixinho e espavorido: - “Minha senhora, o Sr. X teve um enfarte, acaba de ter um enfarte.” A outra não se deu por achada: - “Então, quer me fazer um favor?” Vai lá e pergunta o que é que ele acha da pílula.” O filho, aterrado, balbuciou: - “Mas o Sr. X teve um enfarte!” e a estagiária: - “Eu espero”.

As mulheres são assim, missão dada missão cumprida, elas são ademais de tudo: persistentes. 

sábado, 7 de janeiro de 2012

As dúvidas de Rafael


A casa de Rafael estava em festa, era mês de férias, churrasco em família regado a muita carne e bebidas. Para sua felicidade os amigos também vieram e curtiram um domingo de sol a pino. Tudo conforme o esperado.

Rafael é um jovem com pais também bastante jovens. Foi criado num clima de modernidade, os pais universitários sempre curtiram aos avanços do mundo moderno, a sua tecnologia, as viagens para o exterior e todas as maravilhas que o mundo atual proporciona. Olhando assim de perto, era difícil de dizer que o pai e a mãe de Rafael eram de fato seus pais, tão jovens e tão belos.

Família sarada, todos frequentavam as academias. E muito. Certa feita, num diálogo entre pai e mãe, testemunhado por Rafael, a mãe assim reclamou do pai: ─ você está interessado no meu corpo. Com o que respondeu o pai: ─ engano seu, também sou amarradão no meu. De fato, eram corpos lindos e esculpidos em muita malhação. Rafael também era um jovem lindo e sarado, porém, diferentemente dos pais, possuía inquietações que não eram peculiares aos pais.

Naquele domingo festivoacima citado ─ no final da festa todos os amigos foram embora e ficaram os parentes de Rafael. O rapaz então se debruçou no ombro da mãe, e assim em tom melancólico falou-lhe: ─ estou sentindo um vazio..., e a mãe disse: ─ pede uma pizza filho. Rafael retrucou, ─ estou com uma insegurança..., a mãe disse, ─ compra um tênis novo, Rafael foi além, estou sentindo uma angústia, a mãe de imediato, ─ ligue para farmácia, meu filho, Rafael aumentou o tom de voz, estou sentindo uma solidão..., a mãe categórica recomendou, ─ entre no twitter e no facebook.

Rafael desistiu de expor suas dúvidas para mãe. Levantou-se e antes de sair da sala, de soslaio olhou para a vó que estava sentada em uma poltrona bem próxima, em silêncio profundo e quase em sono.  Ficou com peninha da vó e antes de se retirar lascou-lhe um beijo na testa. A vó carinhosamente segurou no braço sarado do neto, e sem falar qualquer palavra, puxou-lhe para perto abriu a mão carinhosamente e depositou em sua palma um crucifixo de remota data, não sem antes sussurrar-lhe ao ouvido: ─ foi de seu avô que era lindo e inquieto como você. Com um sorriso reconfortado no rosto, Rafael foi andar pelo jardim com o crucifixo fortemente apertado em sua mão...

domingo, 1 de janeiro de 2012

Em Niterói...

Com a família passando o final de ano e o novo início, em Niterói. Casa do casal de compadres, Tatiana e Marcos Copolillo. O clima de acolhimento dos amigos nos faz ignorar a chuvinha fina que não cessa de gotejar...

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Os chatos fundamentalistas


Estava eu tomando café da manhã num hotel em São Paulo, lembrei-me que era quinta-feira, dia que Contardo Calligaris escreve na Folha.  Procurei o jornal e pus-me a ler a sua coluna intitulada, “Sentidos do fundamentalismo”, durante o café.

Dizia Calligaris: “Fundamentalista é, antes de mais nada, quem leva a sério sua convicção e segue à risca os preceitos que derivam dela. Se você for católico, não se divorciará nem comerá carne na Sexta da Paixão. Se for judeu, no sábado, evitará ligar a luz elétrica; se for muçulmano, não tomará álcool e, caso seja mulher, circulará de véu fora de casa; se for ateu, não invocará a misericórdia divina, nem mesmo em momentos de extremo perigo”.

Digo eu, penso que todos têm direito as suas convicções, sejam atéias ou crentes. O problema no plano religioso está na interpretaçãofalo aqui como cristão ─ do mandamento bíblico assim posto: “Ide, pois, ensinai a todas as nações; batizai-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo." Ensinai-as a observar tudo o que vos prescrevi. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo (Mt 28,19-20). Este mandamento a meu sentir é interpretado de forma fundamentalista por boa parte dos cristãos, o que gera um grande desconforto por aqueles que não querem seguir qualquer religião.

do lado dos ateus, é ligar a televisão para ver o bombardeio diário contra os crentes, no que se apresenta como uma laicismo repugnante. Os chatos fundamentalistas estão dos dois lados. É interessante notar que este fundamentalismo do lado cristão não é recomendado pelo Santo Padre Bento XVI, que em Aparecida do Norte (2005), disse com voz forte:

“A Igreja não faz proselitismo. Ela cresce muito mais por 'atração': como Cristo 'atrai todos a si' com a força do seu amor, que culminou no sacrifício da cruz, assim a igreja cumpre a sua missão na medida em que, associada a Cristo, cumpre a sua obra, conformando-se em espírito e concretamente com a caridade do seu Senhor”.

Proselitismo é a atividade daquele que quer fazer seguidores. Ainda que não pugnado pelo Papa, a verdade é que as organizações religiosas ou mesmo os crentes leigos, sobretudo os fundamentalistas, vivem de fazer proselitismos, ainda que com o coração repleto de “boa vontade”.

Nos dias atuais o proselitismo está presente nos dois lados: crentes e ateus. Como bem diz Calligaris, “fundamentalista é quem exige que os preceitos que derivam de suas convicções ou de sua sejam observados por todosou mesmo que eles se transformem em lei da sociedade inteira. Esse tipo de fundamentalista, seja qual for a sua convicção, religiosa ou atéia, é animado pela necessidade de converter os outros, a qualquer custo. Em geral, ele acha que a violência de seu espíritomissionário” é um corolário de sua e uma prova de sua generosidade: “forçando o outro a se converter, eu quero seu bem, mesmo que seja contra a vontade dele”.

Conheço os dois lados da moeda (crentes e ateus), e para mim os “missionários” de ambas vertentes são uns chatos de plantão, verdadeiras malas que não respeitam a liberdade alheia. Tem alguém mais chato do que o ateu Richard Dawkins? E aquele seu vizinho crente que não para de perturbar para visitar a igreja dele?

Concordo com alguns reparos, com Luiz Felipe Ponde (“Saudades de Deus”) quando diz que: “crer ou não crer não é algo que você escolhe. “acontece”. Grandes teólogos como Santo Agostinho, Lutero e Calvino diziam que a “ é uma graça” (simplificando a coisa), alguns receberam o dom e outros não... Acho essa idéia bem mais elegante do que esse papo furado acerca das necessidades racionais, sociais, morais ou psíquicas da crença.”

É a pura verdade, a é uma graça de Deus. Peço a Deus todo dia que aumente a minha . Os batizados a recebem no batismo, mas nem todo a mantém. Igualmente, conheço gente ruim dos dois lados: ateus e crentes. A miséria moral costuma não escolher os eleitos, é pura roleta russa.

Quanto aos cristãos, minha praia, penso que os “missionários do apostoladosão de um fundamentalismo que Cristo mesmo não pregou. Aliás, como bem anotado por Luiz Paulo Horta, (“Igreja e sociedade”). A lei de Cristo é uma lei mais leve, “o meu fardo é leve”, menos detalhista, mais centrada no Amor, ainda que também tenha suas exigências, “quem quiser vir pelo meu caminho, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga”.

Enfim, as lições de Bento XVI em Aparecida do Norte servem para os dois lados, ou seja, é preciso atrair os seguidores pela força do amor, sejam os missionários do apostolado, crentes ou ateus. Abaixo os chatos fundamentalistas!